segunda-feira, 4 de junho de 2012

A caravana


Chego a casa, e há música no ar, por todo lado, alta e vibrante . Hoje foi um dia cansativo no trabalho e não me apetecia mesmo nada ouvir barulho… reconheço de imediato a colectânea de  Best of the 70/80s, e o tema é o “We are the Champions, dos Queen”… não pude deixar de sorrir: era a música preferida do meu pai, que a par com o “Barcelona” tocava até á exaustão. Vem-me logo á memória aquele princípio de Verão de 1989, em que o Belenenses se sagrou vencedor da Taça de Portugal, derrotando o Benfica no Jamor. Penso que nesse dia o vinil tocou até a agulha do gira discos se gastar.

O pai já não está connosco há 18 anos. Partiu novo, deixando um vazio imenso que coisa alguma conseguiu preencher. Era carismático e muito castiço. Era um gastrónomo de primeira água e apreciava um bom vinho. Adorava música, bons filmes, boa leitura, praia, mulheres bonitas, a esposa, os filhos e a neta, no singular, só porque a Renata era ainda muito pequena quando o pai nos deixou.

Vivi com ele a primeira grande aventura da minha vida num maravilhoso Setembro de 1970 : Um Volkswagen Variant com porta bagagens em cima, uma tia sexagenária, uma miúda de 11 anos, um garoto de 7, a mãe, o Menino com 4 meses e o pai ao volante. As roupas e necessaires iam em cima, em grandes malas, e o espaço traseiro do carro, era a nurserie do Menino: tinha caixas com as roupas de bebé e as fraldas, os biberons, as papas, um fogão Campingaz e alguns apetrechos de cozinha, e uma alcofa, que porta-bebés ainda era praticamente um produto de ficção científica.

E então fomos estrada fora, depois duma preparação concisa através de mapas e trajectórias alternativas fornecidas pelo ACP, rumo a Solingen, perto de Colónia na Alemanha, onde a tia sexagenária, a saudosa tia Eugénia, tinha a filha Joceline a estudar e a trabalhar.

A primeira paragem foi em Talavera de la Reina, onde pernoitámos num simpático Hostal, gerido por um casal com uma caterva de filhos, todos alegres e salerosos, e onde o meu pai abriu a primeira garrafa da colheita especial”para levar para a Alemanha”, que guardava zelosamente .  Eram duma simpatia e amabilidade contagiantes, pondo de imediato ao dispor das senhoras a cozinha e outras facilidades necessárias para tratar das crianças. A ideia que me ficou dos Espanhóis é que eram pessoas afáveis e fantásticas, o que me leva a crer que a geração pós-franquista "gave Spaniards a bad name"…. Prossigamos…

Dali, partimos para mais uma tirada,  com almoço numa trattoria italiana em Barcelona - A Costa Brava é linda, grandiosa, magnífica-  e atravessámos outra fronteira já na subida para os Pirinéus, para pernoitar em Perpignan, noutra pousada gerida por outro casal espectacular, onde pus pela primeira vez á prova os dotes linguísticos que adquiri num único ano de Francês. A verdade é que me safei muito bem, e a partir daí tomei-lhe o gosto.

Saídos de Perpignan seguimos por um caminho a que chamavam autoestrada – Uau !!! – e almoçámos num sítio totalmente   práfrentex, chamado área de serviço. A caminho de Dijon, onde pernoitámos, pela 1ª vez num hotel de luxo, sem mostarda, e atravessámos a pior tempestade eléctrica que vi na minha vida que culminou com uma chuva torrencial de proporções bíblicas. Foi uma noite aterradora e praticamente insone; nos breves minutos que conciliávamos no sono eramos despertados abruptamente por hordas de hunos gritantes, que nos bombardeavam sem sessar.Em concílio familiar ficou decidido que no dia seguinte era uma directa até Colónia e pronto, mas não sem antes  passar no Luxemburgo para deixar uma encomenda que um amigo por lá emigrante,  nos tinha pedido para levar.

Depois das peripécias do costume, qual bando de ciganos, chegámos á grandiosidade do Luxemburgo, que se atravessa nuns meros 15 , 20 minutos.  O pai estacionou numa bomba de gasolina, para atestar e pedir direcções. O funcionário que o atendeu , era Juguslavo e falava a sua língua e um mau italiano;  tanto quanto o pai entendeu, atravessava duas pontes e virava na via sinistra. Transmitidas as indicações ipsis verbis, as palavras caíram que nem raios na população da Variant, que depois duma noite terrífica, queria tudo, menos ir para a via sinistra. Novo concílio: não se entregava qualquer encomenda, e era o toca a sair de imediato daquele funesto país . E foi assim que, depois de passarmos duas pontes e virarmos á esquerda, nos encontrámos de novo no caminho para Solingen, onde chegámos nessa mesma noite, depois dum simpático casal de Alemães acabadinho de sair dum pub, ter tido a pachorra de nos levar a Übenstrasse 14, que não ficava  nem mais nem menos senão no ponto oposto ao da nossa entrada na cidade. É que perdemos quase todas as saídas menos aquela, porque sempre que o navegador - mãe- dizia que saíamos a seguir, surgia a indicação "Ausfahrt"... como ninguém queria ir para a Austria, íamos continuando em frente...

Depois da ida, há a estadia , e depois a volta… mas vão ficar para outros Ditos e Escritos.

1 comentário:

  1. Que delicia...
    Ó pazinha, gosto tanto do teu blogue mas vejo-me em palpos de aranha com esta coisa de provar que não sou robot....é que eu já sou uma senhora de uma certa idade e por conseguinte meio ptosga...farto-me de escrever o que penso que lá está e depois a máquina manda-me escrever outra vez porque não acertei com o que lá estava...
    E isto uma série de vezes....

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É aqui que me mandas dar uma curva