segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Haloweentown


"Boys and girls of every age

Wouldn't you like to see something strange

Come with us and you will see,

This our town of Halloween"







Anunciava o letreiro ardente à entrada do recreio do terror.
Nunca tinha visto tanta gente .
Filas imensas de rostos expectantes aguardavam, vestidos com o rigor que se impunha ao local. Assistentes disformes entregavam óculos de VR, indicando que ficariam activos assim que o circuito se aproximasse da zona principal, "Ashes to Ashes and only dust" onde poderiam reviver o período negro mais intenso, o daqueles três meses em que os saídos do lixo caíram no pó da amálgama carbonizada de terras e gentes, pulverizada no flagelo criminoso do fogo perene, que transformou uma poética mancha verde nesta hollywoodesca  Halloweentown.

Chegados à primeira atracção, os bustos fantasmagóricos de assustados  Lapierre e Collins convidam a entrar em "O País já está a arder"? e com uma risada arrepiante, o audioguide ganha vida e começa a narrar os acontecimentos daqueles três meses em que a tinta correu a rodos como se  sangue fosse e pedisse, implorasse que não se calassem as vozes  e se procurassem explicações, negligências, culpas, culpados ...
"Liar, Liar" faíscava um eucalipto enquanto se reacendia em chamas uma e outra vez.

O ar era irrespirável, asfixiante. O calor era insuportável, patrocinado pelas novas tecnologias da GALP. Era quase real, quase...
Saí. Tive que sair. O asco venceu a curiosidade. Não fui a única. Centenas mais, não suportaram reviver o macabro, o horror, o terror, a inépcia, a inutilidade, a inacção.
A realidade deve ter superado mil ficções de exploradores de holocaustos. 

Cheguei a casa e debaixo de uma água escaldante, tentei em vão arrancar de mim aquela camada de abandono que se me incrustara  na pele desde o dia em que deixei de querer saber... old news..

Liguei a TV fiz zapping até achar o que realmente interessava: a discussão parlamentar sobre a lei que permite levar os Lulus às compras e a jantar fora. Isso sim,  é de valor.

Neste momento em que escrevo estamos a aproximar-nos a passos largos da centena de contribuidores para a pira fúnebre, the one and only fiery Brand of Halloweentown.





segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Rage against the machine


É triste pensar que a natureza fala e que o género humano não a ouve.

Victor Hugo




Nunca gostei de touradas. Nunca consegui perceber a exultação de ferir um animal para gáudio de milhares que urram à vista do sangue a jorrar de muitas bandarilhas e olés . Sol e sombra, dia e noite, inteligente ou estúpido, é primitivo, selvagem e indigno.


Um animal assustado e ferido de morte, avança às cegas e leva consigo, imparável , tudo o que se interpuser no caminho desvairado que inevitavelmente o arrastará até onde o fim do sofrimento e o seu próprio fim serão um só.

A raça dominante, já pouco domina. 
Como um animal ferido, a Natureza reage em desespero e arrasa, queima, afoga , esmaga, extermina...
É verdade que sempre existiram chuvas torrenciais, avalanches, fogos, inundações, aluimentos de terras, furacões, ciclones, terramotos, tsunamis... não tenho ideia de tanto desastre natural junto em tão pouco tempo.

Os homens verborreiam, atacam-se, discutem... política, terror, guerra. Até matam e morrem por preferências clubisticas que seguramente levantarão enormes questões existenciais...

Nada disto importa realmente se não tivermos verdadeiramente algo precioso sobre o que discutir, decidir e agir , e que é o pedaço de chão que a Natureza nos emprestou para usarmos na nossa passagem por cá, e que seguramente cada um de nós gostaria que a posteridade pudesse usufruir daquela mancheia de terra , de todos os pedaços , onde deixámos impressa a nossa pegada.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Sou e não sou , serei... Quem sabe ? Eu sei que não sei...



Se sabemos viver, sabemos tudo.

Textos Judaicos
















Quem somos, donde viemos, para onde vamos...

As célebres dúvidas existenciais para as quais ninguém tem resposta certa.

Ninguém ? Ninguém não! Eu pelo menos durante dois meses por anos sei EXACTAMENTE de onde vim e para onde vou.

Vim do trabalho e vou para casa. Vim da casa e vou para o trabalho.

Pode parecer monocórdico, monótono, enfadonho até, mas desengane-se quem pensa que algo tão simples não possa promover fúrias, complicações, desatinos, peripécias mil e até gargalhadas sem fim.

E é aqui que chegamos à parte do quem somos.
Pois na realidade , dias há que não sei, ou  só sei que nada sei, ou sei muito mais do que julgo e muito menos do que imagino, ou só sei o que já não me surpreende, ou sei o que sou e ignoro em que posso tornar-me, ou se não sei aprendo e se já sei ensino, ou como nada sei, não duvido de nada, ou lanço o saber e não terei tristeza, ou sei coisas inúteis que é muito melhor do que não saber nada, ou sei o que todos sabem, que é o mesmo que nada saber, ou muito sei porque bem conheço a minha ignorância, ou sou sábia porque sei que ignoro tudo ( o que por vezes dá um jeitaço...), mas no fundo reconheço que a condição humana do saber é o silencio ...


Sei lá eu...

De uma coisa não sei, mas tenho a  certeza, é que todos os dias durante estes dois meses,  me sinto dentro de uma fita de pelicula gasta e sem cor definida, em que os mocinhos e os bandidos trocam constantemente entre si de personagem e de falas, mas o filme é mudo e eu felizmente não os oiço, talvez porque já não os posso ouvir e preze o silencio como se fosse volfrâmio. Não sou a garota histérica amarrada aos carris do comboio, sou o comboio que percorre todas as estações , espera não atropelar ninguém e no final da corrida, a soprar negro de fumo, anseia por caras alegres e sorrisos cansados mas genuínos, e o balsamo do  som sem ruido que consegui deixar fechado lá atrás, para além do portão azul.

Estão 30 graus  lá fora, a dona sol ofusca a primeira estrela e o chá fervente anima e reconforta. O ronronar também. Até o ressonar me arranca um sorriso de reconhecimento e paz. É tão bom não ter nada para dizer.


É apenas para viver.