segunda-feira, 30 de abril de 2018

Azul, que te quero azul

“Para vermos o azul, olhamos para o céu. A Terra é azul para quem a olha do céu. Azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul.” 

Clarice Lispector





Fecho os olhos e deixo-me levar. Vou ao sabor da maré do sentimento. Flutuo num caudal pardacento. Vou com a corrente para onde a corrente me levar. Não quero saber. Não me interessa. Não quero acordar nesta realidade  a que a própria realidade me obriga . 

Mudar de espaço físico não é deixar para trás os males do mundo e os meus. É apenas não pensar neles enquanto os sentidos absorvem a novidade.

Cansa a monotonia carregada de um cinzento desespero.








Quero cor.
Quero vida.
Quero azul.


quinta-feira, 15 de março de 2018

Separação



"Morrer — dormir, nada mais; e dizer que pelo sono se findam as dores, como os mil abalos inerentes à carne — é a conclusão que devemos buscar. Morrer — dormir; dormir, talvez sonhar "...






Não me lembro de ter nascido, mas agora que penso que existo, é porque seguramente nasci.

O nascimento vem quase sempre associado à dor da separação.

As dores do parto (agora completamente desvalorizadas com o advento das epidurais que desconheço), e as dores do neonato, aflitivas e desesperadas de quem não aprendeu a respirar gasoso e  quer desesperadamente voltar para o seu aconchego. 

Devo ter chorado também, mas tinha o peito quente da minha mãe em meu aguardo, o bater daquele coração que certamente me embalou durante os nove meses em que me abrigou no seu ventre, e a voz, aquela voz que acariciava, acalmava e ungia amor.

Desde que tenho memória, nas minhas memórias existe sempre um par de olhos cor do mar, sorridentes e meigos, afagos ternos que enchiam o coração de felicidade e um colo sereno para desabafar alegrias e tristezas.

Foi sempre assim. Mesmo quando ambas colidíamos  como fogosos meteoritos nas nossas opiniões de mulheres de signo do fogo, acabávamos sempre a rir. Sempre. De tudo. De nada.

                                                                  ...

Quis o destino que na quinta feira resolvesses descansar um pouco naquela poltrona que teimaste trazer para a casa nova, porque era a poltrona do Pai. E adormeceste, Mãe.

Acredito que sonhaste com o Pai, que eram novos, belos, saudáveis e orgulhosos dos filhos, dos netos e da bisneta. E sentiste-te tão feliz, que não quiseste voltar.

Sempre que fecho os olhos, vejo-te lá, calma , serena, descansada. Só te faltava o calor do teu embalo, porque esse acompanhou-te para que lá de longe nos possas embalar.

Naquele dia negro de vento e chuva, no dia em que completariam , tu e o Pai, 60 anos de bodas de diamante, olhando para o fumo que subia da lúgubre chaminé e que contra a força de todos os elementos da Natureza subia direitinho até se diluir no éter, soube que ias ficar bem.

Não há dor maior, do que a dor da separação.

Olha por nós com o amor com que nos guiaste sempre e que com nos ensinaste a amar.


Beijos, minha Mãe.



terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Bem te conheço, oh Máscara...

"Só a fantasia permanece sempre jovem; o que nunca aconteceu nunca envelhece."
 
Schiller





Nunca gostei muito de me mascarar.

Num tempo de  Carnaval,  numa galáxia temporal muito, muito distante, quis muito disfarçar-me de Rainha de Copas, seguramente influências de Lewis Carroll e de Walt Disney, mas não havia fatiota de guarda roupa que preenchesse os requisitos, pelo que fui levada ao engano de que um fato de fada com todos os atributos da mesma, iria ser espectacularmente divertido e inquestionavelmente deslumbrante.

Lá fui eu  toda lampeira, coberta de tules verde água, com uma varinha estrelada, vaporosa e não segura, mas conformada qb.
O meu contento foi tão breve quanto curto era o caminho de casa. O meu Pai,  benza-o Deus e à franqueza que creio lhe ter herdado, assim que me viu com o ensemble do disfarce, não conseguiu deixar de apontar que o velado e etéreo chapéu de fada se parecia demasiado a um cartucho de castanhas assadas... o que era tristemente verdade.

Não me lembro de mais disfarces de Carnaval na minha meninice. Nunca cheguei a vestir-me de Rainha de Copas, mas há bem pouco tempo, inventei uma fatiota de Mad Hatter para uma festa de fantasias, que me assentou que nem uma luva... mero acaso ou facto comprovado de  personalidade gemelar ?

E depois convenci a prole de que Alice era o melhor nome para uma neta de moi, e podem crer que foi na mouche. Não conheço tagarela mais curiosa e espertalhona, caramba !

Ainda assim, e porque os recalcamentos da infância são lixados, tentei convencer a Alice de que seria uma excelente Rainha de Copas, já previamente munida de prints e fotos dos diversos filmes e de vários fatos de máscara para sustentar a minha argumentação, mas não venci nem convenci . Fui derrotada em toda a linha por uma simpática roedora que deitou por terra todas as minhas pretensões à criação de uma Minnie me ...