domingo, 17 de junho de 2018

Estranhos, todos

"O ser humano não é intrinsecamente bom nem mau. O que verifico é que a bondade é mais difícil de alcançar e de exercer. E bem e mal são conceitos demasiado amplos. É mais fácil ser mau, mau nas suas formas menores, mau em tudo aquilo que nos afasta do outro, do que ser bom."

José Saramago









O ser humano... o ser humano é uma caixa de pandora quase fechada. É capaz de práticas abnegadas, desprendidas, até altruístas  e de cometer ao mesmo tempo  o mais hediondo dos crimes, com toda a destreza, como se de nada se tratasse.

Saramago tem toda a razão quando afirma que é muito mais fácil ser mau; sinto isso na pele todos os dias. Era tão bom poder pregar um estalo em vez de sorrir e tentar contemporizar. Quantas vezes o irreverente demónio que advoga as minhas decisões não me diz para os mandar catar?... ou pior ?

O tal anjo da guarda, que é certo e sabido que todos temos e que nos ensina o caminho das pedras para que possamos amar o próximo, mesmo quando queremos que não haja próximo porque estamos fartos de gente maçadora a azucrinar o parco equilíbrio que nos resta , esse não diz nada, porque já sabe que a coisa iria funcionar tipo " gato do Sr. Lopes", e acabava por sobrar para ele.

Há três anos, quando abracei a minha condição de avó, tomei a resolução de nunca mais pintar o cabelo. Não foi decisão que considerasse de animo leve, já que deixar sair a cor natural depois de anos e anos de tintas não é tarefa fácil, já para não falar no aspecto desleixado e ar de desmazelo que o espelho devolve todos os dias durante mais de um ano, e que não deixa de fazer fornicoques na massa cinzenta.
Alcançado o objectivo e o lindo tom sal e pimenta brilhante e sadio que se pretendia, verifico que o meu singelo encanto em tons de cinzento, cedo se converteu naquilo a que chamo" branco mais branco, não há"...

Não culpo a vida, os desgostos e as tristezas. Tudo isto sempre fez e fará parte do percurso. Culpo as pessoas, as pessoas são estranhas. Culpo a insensibilidade, a arrogância, a malvadez. Culpo as falhas profundas que o tempo sulcou na minha fleuma...culpo a moda do stress.

Dias há que de apoplética chego aos 22 de máxima, e maldigo tudo e todos, desde a z8-GND-5296 até à fossa das Marianas...

Qualquer dia...

"Morreu na contramão atrapalhando o público"

Fez três meses que perdi a minha mãe. Pensa-se muito em tudo isto. A nossa própria mortalidade é um pensamento constante...

Não há paz, só gente muita gente; gente grande ,pequena, alta, baixa, gorda, magra, clara ,escura, numa cacofonia de palavras sem sentido, o ruído , o barulho, e a recorrente vontade de fazer mal.



segunda-feira, 30 de abril de 2018

Azul, que te quero azul

“Para vermos o azul, olhamos para o céu. A Terra é azul para quem a olha do céu. Azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul.” 

Clarice Lispector





Fecho os olhos e deixo-me levar. Vou ao sabor da maré do sentimento. Flutuo num caudal pardacento. Vou com a corrente para onde a corrente me levar. Não quero saber. Não me interessa. Não quero acordar nesta realidade  a que a própria realidade me obriga . 

Mudar de espaço físico não é deixar para trás os males do mundo e os meus. É apenas não pensar neles enquanto os sentidos absorvem a novidade.

Cansa a monotonia carregada de um cinzento desespero.








Quero cor.
Quero vida.
Quero azul.


quinta-feira, 15 de março de 2018

Separação



"Morrer — dormir, nada mais; e dizer que pelo sono se findam as dores, como os mil abalos inerentes à carne — é a conclusão que devemos buscar. Morrer — dormir; dormir, talvez sonhar "...






Não me lembro de ter nascido, mas agora que penso que existo, é porque seguramente nasci.

O nascimento vem quase sempre associado à dor da separação.

As dores do parto (agora completamente desvalorizadas com o advento das epidurais que desconheço), e as dores do neonato, aflitivas e desesperadas de quem não aprendeu a respirar gasoso e  quer desesperadamente voltar para o seu aconchego. 

Devo ter chorado também, mas tinha o peito quente da minha mãe em meu aguardo, o bater daquele coração que certamente me embalou durante os nove meses em que me abrigou no seu ventre, e a voz, aquela voz que acariciava, acalmava e ungia amor.

Desde que tenho memória, nas minhas memórias existe sempre um par de olhos cor do mar, sorridentes e meigos, afagos ternos que enchiam o coração de felicidade e um colo sereno para desabafar alegrias e tristezas.

Foi sempre assim. Mesmo quando ambas colidíamos  como fogosos meteoritos nas nossas opiniões de mulheres de signo do fogo, acabávamos sempre a rir. Sempre. De tudo. De nada.

                                                                  ...

Quis o destino que na quinta feira resolvesses descansar um pouco naquela poltrona que teimaste trazer para a casa nova, porque era a poltrona do Pai. E adormeceste, Mãe.

Acredito que sonhaste com o Pai, que eram novos, belos, saudáveis e orgulhosos dos filhos, dos netos e da bisneta. E sentiste-te tão feliz, que não quiseste voltar.

Sempre que fecho os olhos, vejo-te lá, calma , serena, descansada. Só te faltava o calor do teu embalo, porque esse acompanhou-te para que lá de longe nos possas embalar.

Naquele dia negro de vento e chuva, no dia em que completariam , tu e o Pai, 60 anos de bodas de diamante, olhando para o fumo que subia da lúgubre chaminé e que contra a força de todos os elementos da Natureza subia direitinho até se diluir no éter, soube que ias ficar bem.

Não há dor maior, do que a dor da separação.

Olha por nós com o amor com que nos guiaste sempre e que com nos ensinaste a amar.


Beijos, minha Mãe.